A paciência da semente e o Reino de Deus

Na inspiração de Mc 4,26-34

Por| Frei Jacir de Freitas Faria, OFM[1]

O texto de Mc 4,26-34 nos apresenta a relação entre a semente e o Reino de Deus. O modo como Jesus fez para falar do Reino de Deus é chamado de parábola. O que é isso, parábola? Trata-se de um recurso literário, didático, simples e muito utilizado no tempo de Jesus. Temos uma parábola quando uma coisa conhecida é colocada ao lado de uma desconhecida. Por exemplo, a semente de mostarda do texto de Mc 4 é o elemento conhecido; o desconhecido, o Reino de Deus. Para entender como o Reino acontece, Jesus recorre ao modo como a semente de mostarda se desenvolve. A catequese de Jesus era feita por parábolas.

Tendo esclarecido esse primeiro ponto, passemos à compreensão do Reino de Deus a partir da parábola da semente de mostarda. Comecemos pelas perguntas: o que a semente tem a ver com nossa vida? Podemos relacionar a semente com a paciência? Jesus quis relacionar o Reino de Deus com a semente ou com o pé de mostarda? A maioria das interpretações insiste em mostrar que o Reino Deus é como uma semente pequena que cresce e fica grande. Vejamos.

Há três modos possíveis de compreender a parábola da semente de mostarda a partir de seu centro, isto é, da semente, da árvore ou do pé de mostarda?

A partir da semente, o foco do texto é colocado no processo que parte do pequeno, semente, para o grande. A pequena semente de mostarda é o novo Israel, isto é, os seguidores de Jesus, os quais se tornarão grandes na construção do Reino de Deus.

Considerando que o centro da passagem seja uma árvore, seria o mesmo que dizer que o pequeno Israel, os seguidores de Jesus, tornar-se-ia uma grande árvore apocalíptica no fim dos tempos. Textos do Primeiro Testamento falam do cedro do Líbano como árvore apocalíptica (Sl 104,12; Ez,31,3.6; Dn 4,10-12). E é nessa grande árvore que os pássaros fariam os seus ninhos. Acreditamos que se Jesus, de fato, quisesse referir-se a uma árvore apocalíptica, ele teria mencionado o cedro do Líbano e não a mostrada.

A terceira possiblidade de compreender a parábola é o pé de mostarda. A mostarda é uma planta medicinal e culinária que chega a medir, no máximo, 1 m e ½ de altura. Ela se desenvolve melhor ao ser transplantada. Depois de plantada, torna-se uma erva daninha. Temos dois tipos de mostarda, a selvagem e a culinária. Por ser uma planta impura, o código deuteronômico (Dt 22,9) proíbe a sua plantação. Nisso, talvez, esteja o motivo provocador de Jesus em buscar uma comparação não muito aceita para falar do Reino que ele pregava.

O Reino de Deus chega e se esparrama. Não pode ser controlado, torna-se abundante como a nossa tiririca. Atrai pássaros, os quais são inimigos de qualquer agricultor. O Reino, depois de semeado, perde o controle, toma conta do terreno todo. Assim como o Reino, a mostarda é motivo de escândalo para muitos. O Reino é indesejável e violador das regras de santidade.

Para falar do pé de mostarda, capaz de abrigar pássaros, Jesus parte da semente pequena que cresce e se torna uma árvore. Para que isso aconteça, temos que ter persistência e paciência. E é isso que Jesus estava querendo ensinar. Na vida, precisamos ter paciência para conquistar o que almejamos. Até Jesus teve que esperar trinta anos para iniciar a sua vida pública. Uma das sabedorias humanas é ter paciência. Permita-me alargar a comparação, parábola, que Jesus fez com a nossa vida. Veja! A mulher engravida. Para ela é um tempo difícil de espera. São nove meses até que um minúsculo embrião cresça e saia de seu ventre. Quanta espera! A criança nasce, não sabe falar e nem andar. Quanta espera para se tornar adulto. Bater asas, voar do ninho, amadurecer. Quanta luta! Muitos nem conseguem essa proeza em vida. Queimam etapas. Chegam aos quarenta querendo ser a criança que nunca foram. Para finalizar, eu diria que o Reino de Deus precisa ser buscado sempre, germinado sempre como a vida, incomodar sempre como a mostarda. Na construção do reino, a paciência é a palavra-chave. O reino se realiza às escondidas como a semente de mostarda, mas quando vemos sinais de sua presença, exclamamos: aí está o pé de mostarda, o indesejado que nos acolhe como pássaros sedentos de sua sombra, de sua justiça em todos os níveis! Amém! Assim seja.


[1] Doutor em Teologia Bíblica pela FAJE-BH. Mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Professor de exegese bíblica. Membro da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB). Sacerdote Franciscano. Autor de dez livros e coautor de quatorze. Últimos livros: O Medo do Inferno e a arte de bem morrer: da devoção apócrifa à Dormição de Maria às irmandades de Nossa Senhora da Boa Morte (Vozes, 2019). Coautor de: A releitura do Deuteronômio nos evangelhos. In: KONINGS, Johan; SILVANO, Zuleica Aparecida. (Org.). Deuteronômio: Escuta, Israel. 1ed.São Paulo: Paulinas, 2020, v. 1, p. 187-230.

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