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Tesouros da Verbum Domini para a Catequese

Por| Roberto Nentwig

O Papa Bento XVI nos apresentou a Exortação que resultou da XII Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, que aconteceu no Vaticano de 5 a 26 de outubro de 2008, que teve como tema A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja. No Brasil, a CNBB se debruçou sobre o tema da Palavra de Deus na assembleia dos bispos de 2010. Depois de 10 anos, o tema volta para a pauta, sendo a Palavra um dos pilares que sustenta a comunidade eclesial missionária, de acordo com as novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora para a Igreja do Brasil. Neste contexto, segundo Padre Janison, a Comissão para a Animação Bíblico Catequética propõe a retomada do estudo desta preciosa Exortação Apostólica, especialmente para as lideranças envolvidas com a Iniciação à Vida Cristã. 

Neste artigo, apresentamos alguns aspectos que podem ajudar a reflexão catequética, resgatando algumas dicas preciosas do documento que podem auxiliar para que a Iniciação à Vida Cristã esteja em sintonia profunda com a Palavra de Deus. Primeiramente, segue uma visão geral do documento.

Visão geral da Verbum Domini

A Verbum Domini (VB) é constituída de três partes: Verbum Dei, Verbum in Ecclesia e Verbum mundo.

I Parte – Verbum Dei

No princípio já existia o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus (…) e o Verbo fez-Se carne” (Jo 1, 1.14). 

Nesta primeira parte, a Exortação fundamenta o diálogo existente entre Deus e o ser humano. Deus é pura comunicação, deseja comunicar a sua pessoa e o seu amor. Diante da revelação, cabe a nós uma resposta afirmativa de acolhida da Palavra do Senhor. Para que possamos responder de modo conveniente, a Palavra de Deus deverá ser bem interpretada, com critérios adequados. 

II Parte – Verbum in Ecclesia
“A todos os que O receberam, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus” (Jo 1, 12).

Ao tratar da relação entre a Palavra e a Igreja, a Exortação, citando S. Agostinho, define a Igreja como uma realidade acolhedora do Verbo Encarnado, que veio fazer a sua tenda entre nós. Na Igreja, o lugar privilegiado onde Deus fala é a liturgia: nela o Povo de Deus escuta e responde. Nesta parte o documento apresenta a relação entre Bíblia e catequese, enfatizando a importância da Bíblia na ação catequética: “O encontro dos discípulos de Emaús com Jesus, descrito pelo evangelista Lucas (cf. Lc 24, 13-35), representa, em certo sentido, o modelo de uma catequese em cujo centro está a ‘explicação das Escritura’ que somente Cristo é capaz de dar (cf. Lc 24, 27-28), mostrando o seu cumprimento em Si mesmo. Assim, renasce a esperança, mais forte do que qualquer revés, que faz daqueles discípulos testemunhas convictas e credíveis do Ressuscitado” (VD 74).

III Parte – Verbum mundo 
“Ninguém jamais viu a Deus: o Filho único, que está no seio do Pai, é que O deu a conhecer” (Jo 1, 18).

Na parte final, o Papa destaca que todos os cristãos são chamados a proclamar a Palavra de Deus, sendo ela a motivadora da missão da Igreja. À exemplo da comunidade primitiva que estava alicerçada na pregação e no testemunho (cf. At 6, 7), também hoje a Igreja deve anunciar verbalmente e vivenciar o que anuncia. 

A interpretação da Sagrada Escritura

O primeiro ponto abordado pelo documento é a Igreja como lugar da interpretação das Escrituras (cf. VD 29-30). O papa Bento XVI destaca que a Bíblia foi escrita no ambiente da comunidade: a liturgia, a espiritualidade e a cultura de cada comunidade ajudaram a dar a identidade de cada livro. Este aspecto eclesial da hermenêutica (=interpretação) bíblica tem duas consequências para a catequese:

– Nossa leitura dos textos bíblicos está sempre em comunhão com o Povo de Deus: “nenhuma profecia da Escritura é de interpretação particular” (2Pd 1,20-21). Por isso, ninguém deve tirar suas próprias conclusões por uma interpretação livre. Uma autêntica interpretação dos textos deve estar em sintonia com a fé da Igreja, em comunhão com o magistério.

– A Bíblia é um livro da comunidade. A comunidade é convocada pela Palavra (Igreja = assembleia convocada), e é proclamadora da Palavra. É muito comum se enfatizar o uso individual da Bíblia. É preciso ressaltar que um dos objetivos da Escritura é formar comunidade, como afirma o DNC 108. 

Outro ponto relevante sobre este assunto é a hermenêutica conciliar (cf. VD 34). A Exortação resgata três critérios a serem respeitados para uma adequada interpretação dos textos sagrados:

– considerar a unidade de toda a Escritura, que significa não tomar textos e versículos isolados;

– ter presente a Tradição viva de toda a Igreja;

– observar a analogia da fé: significa que a Escritura explica a própria Escritura, não podendo ser contrária ao corpo de verdades extraídos dela mesma. Ou seja, é preciso considerar que existe uma unidade nos ensinamentos da Escritura. Seria um absurdo, por exemplo, justificar o ódio, tomando alguns textos, já que em sua unidade a Bíblia nos ensina o amor.

É muito importante que os catequistas tenham cuidado para que a Bíblia não seja utilizada de qualquer modo. Os critérios de interpretação nos ajudam a evitar erros, como o fundamentalismo e o zelo agressivo (cf. DNC 111). Por isso, é fundamental ter intimidade com a Escritura e uma espiritualidade bíblica. 

A Exortação também resgata a importante distinção entre o sentido literal e o sentido espiritual dos textos bíblicos (cf. VD 37). O sentido literal diz respeito à intenção do autor ao escrever o texto, considerando os estudos da Exegese, as regras de interpretação. Já o sentido espiritual vai além, expressando um sentido divino, mistagógico

O sentido espiritual é muito importante para a catequese, principalmente quando desejamos resgatar a catequese mistagógica. A inspiração vem dos Santos Padres que, ao lerem os textos da Escritura, procuravam interpretar as várias passagens, retirando deles os sinais de Cristo (já no Antigo Testamento) e dos sacramentos. Sua preocupação não era científica, como percebemos nos últimos séculos. Procuravam trazer do texto bíblico o seu significado para a fé e a vida dos leitores. A catequese pode aproveitar este sentido espiritual para ajudar os catequizandos a se apaixonarem pelo Senhor e pelo seu projeto, a partir dos textos da Bíblia.

O sentido literal se aproxima do método histórico-crítico. Sua preocupação é o contexto em que aconteceram os fatos, a historicidade do texto. Este sentido é importante, mas não deve se opor ao sentido espiritual. Um exemplo: muitas pessoas se perguntam se Adão e Eva realmente existiram, se comeram uma fruta, se a desavença entre Caim e Abel realmente aconteceu… Estas perguntas não podem esconder outras questões muito mais importantes: qual o sentido do pecado manifesto no texto de Adão e Eva? Por que Caim matou o seu irmão? Ao perguntarmos sobre a existência de Caim, não podemos nos esquecer de uma questão muito mais importante: “Onde está o teu irmão?” Não pode haver uma preocupação com a historicidade do texto, sem que se preocupe com a vida do texto. 

A Exortação fala da superação da letra: “de fato, a Palavra do próprio Deus nunca se apresenta na simples literalidade do texto. Para alcançá-la, é preciso transcender a literalidade num processo de compreensão, que se deixa guiar pelo movimento interior do conjunto e, portanto, deve tornar-se também um processo de vida” (VD 38). O Espírito Santo nos conduz a ter a Bíblia como um texto inspirado que guia a nossa vida para a felicidade, mediante a fé em Deus que nos criou, que se encarnou, morreu e ressuscitou por seu amor. Sem ele, o texto será uma lei fria, um texto para ser estudado, um pretexto de argumentação. Por isso, é preciso ter bem presente as palavras de São Paulo: “a letra mata, mas o Espírito vivifica” (2Cor 3,6). 

O documento ainda nos alerta contra o perigo do fundamentalismo (cf. VD 44): uma leitura literalista (sem o seu sentido espiritual), o uso dos versículos ou textos sem considerar o contexto e a unidade da Escritura. Há sempre o risco de fazer o texto dizer o que queremos que ele diga. O correto é deixar Deus falar. 

Assim, na catequese, os dois extremos devem ser evitados. A leitura arbitrária (com a desculpa de ser leitura espiritual) e a leitura por demais científica do texto (sem considerar o sentido espiritual). A catequese deve se preocupar com a mensagem do texto, com sua aplicação na fé e na vida, considerando o conhecimento dos estudos bíblicos. Por isso, uma formação bíblica é fundamental para os catequistas.

A animação bíblica da pastoral 

A Exortação destaca a importância da animação bíblica de toda a pastoral (cf. VD 73). Trata-se de um tema muito importante, destacado pelas novas Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil como uma das urgências da evangelização

O termo animus está relacionado à força interior, o que move interiormente, motiva, faz com que uma ação seja desenvolvida com ímpeto. O contrário do ânimo é o desânimo: a falta de vitalidade, de força, de alegria. É nesta perspectiva que devemos entender a animação bíblica: trata-se de fazer com que a Palavra de Deus motive (dê ânimo!) para toda a ação pastoral da Igreja. 

Não se trata de acrescentar atividades ou encontros no calendário das comunidades, de criar novos organismos ou estruturas, mas implementar o uso da Escritura, fazendo com que todas as atividades da comunidade sejam permeadas pela Bíblia. Tudo isso porque a Palavra é a condição essencial para encontrar o Cristo (cf. DAp 247). Assim, faz-se imprescindível torná-la cada vez mais presente nas comunidades para que todos se encantem pela proposta do Reino, pela construção da comunidade e pelo testemunho no mundo. O melhor caminho para este intento é o contato direto com a Bíblia.

O documento também dá um destaque para as pequenas comunidades formadas por famílias ou ligadas a movimentos eclesiais como caminho importante para a oração e o conhecimento bíblico (cf. VD 73). Um dos modos de se criar pequenas comunidades ao redor da Palavra são os círculos bíblicos (haverá um grande congresso nacional sobre este tema). Tratam-se de instrumentos eficazes de evangelização inculturada no meio urbano: contribuem na reanimação das comunidades, na formação de pequenas comunidades domésticas, na encarnação de uma espiritualidade bíblica pela aplicação de práticas que transformam a realidade. 

O que pode ser feito para efetivar a animação bíblica da pastoral? Colocar a Bíblia na mão do povo, exercitar uma espiritualidade bíblica, multiplicar os pequenos grupos bíblicos, promover a leitura orante da Bíblia, proporcionar momentos de aprofundamento bíblico para uma leitura correta da Escritura, fazer a Bíblia estar presente em nossas atividades pastorais…

A dimensão bíblica da catequese

Exortação Verbum Domini (cf. VD 74) no fala da dimensão bíblica da catequese (também se pode falar de animação bíblica da catequese). O documento resgata um importante parágrafo do Diretório Geral para a Catequese: a catequese “tem de ser impregnada e embebida de pensamento, espírito e atitudes bíblicas e evangélicas, mediante um contato assíduo com os próprios textos sagrados; e recordar que a catequese será tanto mais rica e eficaz quanto ler os textos com a inteligência e o coração da Igreja” (DGC 127). 

O documento nos traz algumas pistas bem concretas para que a catequese tenha uma forte dimensão bíblica:

–  incentivar a memorização de algumas passagens bíblicas;

– comunicar com vigor a história da salvação e os conteúdos da fé, de modo que os catequizandos percebam que suas vidas fazem parte desta história;

– sublinhar a relação entre Bíblia e Catecismo: deste modo, podemos mais facilmente aproximar a Escritura da Tradição viva da Igreja, lembrando que ambas são fontes da Palavra de Deus.            

O anúncio da Palavra de Deus  

A Exortação, na sua III parte, trata da relação entre a Palavra de Deus e o anúncio. De fato, quando falamos da Palavra não nos referimos ao texto escrito, mas ao Logos, ou seja, ao Verbo que se fez carne. Cristo é o narrador de Deus, o revelador do Pai, “Ele é a imagem de Deus invisível” (Cl 1,15). 

A Palavra de vida que dá esperança e sentido à existência humana jamais poderá ser escondida. Quem fez a experiência do encontro com o Senhor tem a tarefa de anunciar ao mundo, certo de que é habitado pelo Espírito do Ressuscitado (cf. VD 91). Tal experiência é presente na Igreja desde a comunidade primitiva, que via a difusão da Palavra pela pregação e testemunho: “Ai de mim se não evangelizar!” (1Cor 9,16). 

É fundamental que esta consciência missionária, presente desde o início da Igreja, seja revigorada. A Igreja não se entende separada de sua missão de levar a Boa Nova. O anúncio cristão traz uma grande novidade, segundo o Papa Bento XVI: “Ele mostrou-Se. Ele em pessoa. E agora está aberto o caminho para Ele. A novidade do anúncio não consiste num pensamento mas num fato: Ele revelou-Se”. Não se trata de uma “palavra anestesiante, mas desinstaladora, que chama à conversão” (VD 93). 

A Exortação resgata as palavras do documento de Aparecida, afirmando que existem irmãos “batizados, mas não suficientemente evangelizados” (VD 95). Sendo assim, há a necessidade de uma nova evangelização, mesmo aos já batizados. É necessário que a Palavra seja anunciada de modo persuasivo, como caminho para a experiência concreta da força do Evangelho (cf. VD 95). 

A missão de anunciar o Cristo Palavra é de todos os que já o encontraram. De um modo especial, é missão dos catequistas. Hoje, ressalta-se a relação entre evangelização e catequese. A catequese deve estar impregnada pela força do primeiro anúncio, assumindo suas características essenciais: centralidade na pessoa do Cristo, atenção à pessoa, apelo à conversão, mediação para o encontro pessoal com o Senhor, uma catequese de inspiração catecumenal que seja verdadeiramente querigmática.

Uma catequese anunciadora da Boa Nova dependerá de pessoas que não apenas anunciem com palavras, mas também pelo testemunho, para que se garanta a credibilidade do Evangelho (cf. VD 97). 

 *Roberto Nentwig é Presbítero da Arquidiocese de Curitiba, reitor do Seminário Filosófico Bom Pastor e do Instituto Discípulos de Emaús, professor na PUC-PR e no Studium Theologicum (Curitiba). No âmbito da catequese, atua em assessorias e é membro do SBCat e do GREBICAT.

In: http://www.catequesedobrasil.org.br

Por Karina Moreti

Jornalista, musicista e animadora litúrgica da diocese de Lins-SP.

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