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Gênesis 1-2,4: Relatos da criação

Por Hermes de Abreu Fernandes

Quem nunca se perguntou sobre as impossibilidades históricas, ou mesmo lógicas, do relato da criação descrito em Gênesis? Poucos sãos os irmãos e irmãs que ainda concebem a possibilidade de uma leitura literal destes textos. Conto? Mitologia? Literatura legendária do imaginário popular? Como definir e entender os 12 primeiros capítulos do primeiro livro da Bíblia? É um desafio sua compreensão. Neste texto, nos ocuparemos de uma breve introdução e dos dois primeiros capítulos do Gênesis. Em publicações futuras, iremos tratar dos demais capítulos até o de número 12. Vamos embarcar nesta aventura?

Desejamos nestes escritos apresentar as leituras destes textos a partir da teologia patrística e das novas descobertas bíblicas. Neste sentido, é bom atentar que nossos textos sempre estão divididos em duas partes. A primeira, a partir do conhecimento bíblico dos Santos Padres, sua relação com o Magistério da Igreja.  A segunda, chaves de leitura mais hodiernas. Assim, o leitor pode ter contato com duas abordagens de suma importância para o conhecimento bíblico.

Gênesis é o livro mais extenso do pentateuco. Pentateuco é o conjunto dos 5 primeiros livros da Bíblia, sendo eles: Genesis, Êxodo, Números, Levítico e Deuteronômio. Estes 5 primeiros livros são chamados pelos Judeus de Torá. Para o Cânon Cristão, ficou-nos a nomenclatura Pentateuco. Pénte = cinco e teûchos = rolos. Pentateuco vem significar cinco rolos, cinco livros.

Uma das primeiras referências da Torá e, por assim dizer, do Pentateuco, está nos manuscritos de Qumran, pertencentes a uma comunidade que vivia no deserto próximo ao Mar Morto, entre os Séculos II a.C. e I d.C. Um fragmento de manuscrito encontrado na Caverna 1, onde parte da biblioteca dos qumranitas foi depositada apresenta a expressão kw(s)prym, isto é: Todos os rolos do Pentateuco (cf KIBUUKA: 2020, p. 22).

O nome Gênesis deriva do grego (Γένεσις), que vem significar: origem. Em hebraico, bereshit (בְּרֵאשִׁית), no princípio. Podemos também ouvir sua definição como o Primeiro Livro de Moisés. Em suma, o Livro das Origens. Gênesis tenta dar respostas aos primeiros enigmas do homem: o cosmo, a vida e a morte, o bem e o mal, o indivíduo e a sociedade, a cultura e a religião. É um livro sobre as origens. Trata do “Como” e dos “Porquês“. Questões primordiais da compreensão da existência humana. Tais repostas recebem uma abordagem teológica, sobretudo, quando da reforma Sacerdotal do judaísmo, 520-516 a.C. Tenta dar um trato histórico, mesmo que, com isso, pareça mítico. Em se tratando do gênero em que foi escrito pelo autor sagrado, a formulação, concatenação de fatos e ideias, aproxima-se de relato histórico. Outrossim, fica-nos impossível crer que seja revestido de historicidade. O Gênesis também não pode ser entendido como mito, embora utilize de expressões míticas, desmitificando-as. Aí está a grande aventura de se compreender o Gênesis: história e mito se misturam, enamoram-se, dialogam. Nada mais expressa a grandeza criativa de Deus, que desafia os conceitos básicos de compreensão. Ele, o Todo, só pode ser compreendido a partir de sua totalidade. É uma história, sem historiografia. Não permite a literalidade, também expurga o relativismo. O Criador, Yhaweh/Elohin, é! Isto basta.

Antes de examinar o conteúdo bíblico-teológico dos dois relatos da Criação (Gn 1-2), é importante considerar as cosmogonias provenientes do contexto histórico em que foi formado o texto de Gênesis. Antes, poderemos nos perguntar: o que é Cosmogonia? Cada povo tem seu mito fundador sobre a origem do mundo. Cada cultura conta sua história e suas lendas. Princípios religiosos, míticos ou científicos tentam explicar a origem do universo e influenciam a nossa visão de mundo. No contexto do Brasil, e até mesmo sul-americano, podemos ver e ouvir, comumente, narrações sobre cinco cosmogonias: Yorùbá, Maxakali, Grega, Maia-quiché e Judaico-cristã (cf RIBEIRO: 1986, p. 83).

Nos tempos em que nascia o povo hebreu, assim como quando ele tentou manter sua fé e sua liberdade, as narrativas do Antigo Oriente Próximo, isto é, a civilização egípcia e os vários povos que dominaram a região da Mesopotâmia, nas proximidades dos rios Tigre e Eufrates, como os sumérios, amonitas (ou amoritas), assírios e caldeus; acreditavam em uma cosmogonia em que a formação do universo é resultado de lutas entre deuses. A criação do ser humano era uma forma de resolver o desconforto que existia no mundo divino. Claro, estamos falando do politeísmo presente nas culturas vizinhas. Na Mesopotâmia, presente no poema Enuma Elish, por exemplo, relata que os deuses surgiram de um caos primordial. Os Egípcios tinham divindades diversas. Acompanhando sentimentos humanos e fenômenos da natureza. O politeísmo não era parte da crença do povo hebreu. Acreditavam em Yahweh, Deus único, mesmo que seja apresentado com outro nome: Elohim, El Shaday. A fé monoteísta entre os hebreus é um fato.

O autor do Gênesis toma a imagem do mundo tal como a ciência de então a via. Ele a simplifica e estiliza em seres e grupos elementares. Divisão e oposição são os princípios de ordem e harmonia (Eclo 33,7-15), classificação e nomenclatura são princípios de conhecimento organizado. Essa visão empírica é projetada globalmente no momento do primeiro existir, e aí entram em ação dois princípios dinâmicos: o alento de Deus que gesta e transforma o Caos em Cosmo, e a Palavra soberana de Deus, que dá ordem para o existir, designa lugar e nome. Por fim, abençoa (Gn 1,10).

A narrativa da Criação em Gn 1-2,4a é um relato Sacerdotal que rivaliza com as cosmogonias do Antigo Oriente Próximo. Nele, narra-se a atividade criadora de Deus, chamado no texto de Elohin. Tal atividade acontece em um marco temporal simbólico de uma semana. A semana de seis dias de trabalho e um de descanso, se projeta no tempo primordial, apresentando a ação de Deus à imagem do homem (Ex 20,11). Esta analogia ressalta a diferença: a ação de Deus é soberana e eficaz. Sua obra é o Universo e, este, é perfeito. Aqui, mais uma apologética contra as cosmogonias politeístas do Antigo Oriente Próximo. Outra peculiaridade da narrativa da criação em Gênesis em oposição às cosmogonias e teologias do Antigo Oriente Próximo é que as divindades criavam a partir do conflito, da guerra e da força. Em Gênesis, Yahweh/Elohim cria a partir de sua Palavra.

No relato da criação, os elementos foram utilizados a serviço dos temas teológicos. O fato de as coisa criadas virem, uma a uma, à existência – devido à Palavra de Deus – sublinha seu domínio e sua onipotência universal. As criaturas surgem de acordo com uma crescente ordem de dignidade. O homem está, segundo o Gênesis, no ápice dessa escala de perfeição. O ato da criação do homem aparece, assim, como o ponto de convergência para o qual o todo criado converge. Esse fato é acentuado por outras sugestões editoriais do texto inspirado: o amplo espaço dedicado à narração deste trabalho divino (Gn 1,26-31), a indicação após uma deliberação especial de Deus (Gn 1,26), a benção divina especial dada aos seres humanos (Gn 1,28) e a atribuição de domínio sobre toda a criação (Gn 1,28-30). Uma narrativa ritual, quase litúrgica. O autor do Gênesis celebra a vida, relatando sua origem.

Na luta contra a opressão, Israel reinterpretou estas liturgias, apresentando a Criação por dez palavras emitidas por Deus/Elohin. O “e Deus disse” vem afirmar a dignidade de Deus e, consequentemente, toda dignidade humana, uma vez que o próprio Genesis afirma ser a humanidade criada à sua imagem e semelhança. No exílio de 586-538 a.C., Israel aprofundou essa releitura em três sentidos:

 Afirmar que o único Deus verdadeiro é o Deus dos oprimidos (Is 43,10-13; 44,6-8; 45,5-6 etc) e rejeitar as divindades que legitimam a dominação imperial babilônica, apresentando seus símbolos divinos (os babilônicos) como meros elementos criados pelo Deus único: luz, sol, lua, estrelas (cf Is 40,26; 42,5; 45,12 etc).

2º Inserir o esquema dos sete dias, para ressaltar o sábado e reivindicar e sacralizar o direito ao descanso semanal (Ex 20,8-11; Mc 2,27).

3º Reafirmar que todos as pessoas são imagem e semelhança de Deus (cf Gn 4,1-3).

O sagrado dessa narrativa está na concepção de um Deus que é vida, que partilha a vida com todos os seres e que convoca a abandonar comportamentos violentos e dominadores, a fim de que sua imagem e semelhança resplandeçam em nós.

Mais que pensar na literalidade da narrativa da criação, ou um relativismo que a relega ao mero mito; devemos entender que o texto deseja celebrar a vida, desde sua origem. Opondo-se a todo e qualquer pensamento que subjugue Deus e a dignidade humana. Nem história, nem mito. É um contar ritual. Uma celebração!

REFERÊNCIAS

BARTHÉLEMY & MILIK (org). Le Pentateuque. Paris: Editions du Cerf, 1998.

CARR, D. M. “Torah on the Heart: Literary Jewish Textuality Within Its Ancient Near Eastern Context”. Religious Studious Reviw 23, 1997, p. 22-31.

HAHN, Scott & MITCH, Curtis. O livro do Gênesis: Caderno de estudo Bíblico. Campinas: Ecclesiae, 2015.

KIBUUKA, B. A Torá Comentada. São Paulo: Fonte Editorial, 2020.

MCKENZIE, John L. Dicionário Bíblico. São Paulo: Paulus, 1984.

RIBEIRO, Berta G. (org). Suma Etnológica Brasileira. Petrópolis: Vozes, 1986.

 STORNIOLO, Ivo & BALANCIN, Euclides Martins. Como ler o Livro do Gênesis: Origem da Vida e História. 1ª Ed. São Paulo: Paulus, 1997.

Fonte: O Caminheiro do Reino

Por Karina Moreti

Jornalista, musicista e animadora litúrgica da diocese de Lins-SP.

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